A partir deste texto, estarei postando um estudo sobre uma possível doutrina do Eu, na qual quero provar a possibilidade de vivência social perfeitamente salutar, com base no egoísmo.
Existem algumas palavras incorporadas ao vocabulário humano para dar certa harmonia na convivência social. Altruísmo, originada a partir do positivismo de Comte, para incitar o ser humano à preocupação com o outro, devendo esta tendência ser aprimorada pela educação positiva, evitando-se assim a ação antagônica dos instintos naturais do egoísmo. A solidariedade para enfatizar a dependência um do outro. A fraternidade para explicitar a harmonia e união que deve existir entre aqueles que vivem uma proximidade ou que lutam pela mesma causa. Estes significados, retirados a partir do dicionário Houaiss, impõe uma conduta comportamental que visa a adequar o sujeito dentro de uma sociedade.
Como pode ser percebido, com base no naturalismo, o altruísmo se torna um remédio, ou melhor, um antídoto ministrado através da educação com o intuito de transformar o sujeito naturalmente egoísta, num ser positivo, civilizado, um autêntico ser altruísta. Spencer expressa, em Princípios da Psicologia, que a antítese entre egoísmo e altruísmo estaria destinada a desaparecer com a evolução moral e que haveria cada vez mais coincidência entre a satisfação do indivíduo e o bem-estar e a felicidade do outro (apud ABBAGNANO, 2007). Mas, enfatizando outra concepção do termo, na qual o altruísmo está fundado no amor ao próximo, Nietzsche, ao identificar essa condição, em Assim Falou Zaratustra, condena este entendimento, e que na fala do personagem central de sua obra expressa: "Vós ides ao próximo fugindo de vós mesmos e quereríeis fazer disso uma virtude; mas eu leio através do vosso altruísmo. Não sabeis suportar-vos a vós mesmos e não vos amais o bastante; e eis que quereis seduzir o vosso próximo induzindo-o ao amor e embelezar-vos com o seu amor" (ibidem). Ainda é possível encontrar diversos confrontos, dos quais Scheler também nega a identificação do altruísmo com o amor.
Para tentar entender a grande aversão social para com o egoísmo, será necessária uma investigação pormenorizada da criação e dos conceitos que o termo carrega. Existe e foi inculcado no consenso social, por assim dizer, um verdadeiro combate a essa condição humana, impondo que por ela existirá uma condição perniciosa para uma perfeita convivência social. Deste modo, foi negada a possibilidade de uma explícita doutrina do Eu e o pensador que faz isso, cai no esquecimento, demonstrando assim a intenção primeira da sociedade.
Encontra-se, no dicionário de filosofia estruturado por Abbagnano (2007), que o termo foi criado no século XVIII para indicar a atitude de quem dá importância predominante a si mesmo ou aos seus próprios juízos, sentimentos ou necessidades, e pouco ou nada se preocupa com os outros. Platão já achava que o "amor desmesurado por si mesmo" (que nada tem a ver com a filáucia de que falava Aristóteles) é a causa de todas as culpas dos homens (Leis, V, 731e). Muitas vezes o egoísmo foi considerado atitude natural do homem. Diz Kant: "A partir do dia em que o homem começa a falar em primeira pessoa, ele passa a pôr seu querido eu na frente de tudo, e o egoísmo progride incessantemente, sub-reptícia ou abertamente (por sofrer a oposição do egoísmo dos outros)" (Antr, I, § 2). Aliás, antes de Kant, Adam Smith (Teoria dos sentimentos morais, 1759) e os moralistas franceses tinham visto no egoísmo uma das emoções fundamentais do homem. Vauvenargues, que chama o egoísmo de "amor próprio", distingue-o do amor de si(y), que é a filáucia de Aristóteles (De 1′esprit humain, 24). Kant distingue três formas de egoísmo: 1. Egoísmo lógico, de quem não acha necessário submeter seu próprio juízo ao juízo alheio; 2. Egoísmo estético, que se satisfaz com seu próprio gosto; 3. Egoísmo moral, de quem restringe todos os fins a si mesmo e não vê utilidade no que não lhe traz proveito. Além dessas três espécies de egoísmo, Kant distingue o Egoísmo metafísico, que responde negativamente à pergunta: "eu, como ser pensante, tenho razão de admitir, além da minha existência, também a de um todo de outros seres que estão em comunhão comigo?" (Antr., I § 2). A antítese entre egoísmo e altruísmo e a predição do futuro triunfo do altruísmo são típicas da ética positivista. O positivismo cunhou a palavra altruísmo e, ao lado dos instintos egoísticos, admitiu a existência de instintos altruístas destinados a prevalecer com o progresso moral da humanidade (COMTE, Catéchisme positiviste, pp. 48 e ss.; SPENCER, Data of Ethics, § 46). Por outro lado, Stirner e Nietzsche sustentaram a moral do egoísmo. Stirner chamou seu anarquísmo de egoísmo absoluto, que consiste na afirmação de que o indivíduo é a única realidade e o único valor (Der Einzige undseín Eigentum, 1845). Nietzsche por sua vez dizia: "O egoísmo é parte essencial da alma aristocrática e por egoísmo entendo a fé inquebrantável em que outros seres devem sujeitar-se e sacrificar-se pelo ser que nós somos" (Jenseit von Gut und Bóse, 1886, § 265). Scheler deu a melhor caracterização do egoísmo, distinguindo-o do amor de si ou filáucia. O egoísmo, segundo diz, não se dirige ao eu individual como objeto de amor desvinculado de todas as relações sociais. O egoísta não se comporta como se estivesse só no mundo, mas está tão absorvido por seu eu social que se apega somente aos seus próprios valores ou àqueles que podem tornar-se seus. Essa atitude é o contrário do amor de si, dirigido principalmente aos valores por si mesmos (Sympathie, II. cap. I, § 1).
Porém, esta preocupação leva outros pensadores a se debruçarem sobre os problemas impostos pelo egoísmo, um deles é Freud que, para trazer à luz sua ciência, num primeiro momento, busca diferenciar seus estudos das concepções filosóficas. Assim, desde o princípio de sua explanação, na construção da psicanálise, Freud faz questão de frisar seu posicionamento diferenciado para o que até aquele momento era discussão da filosofia, em que:
Com relação a isso, não nos interessa indagar até onde, com a hipótese do princípio de prazer, abordamos qualquer sistema filosófico específico, historicamente estabelecido. Chegamos a essas suposições especulativas numa tentativa de descrever e explicar os fatos da observação diária em nosso campo de estudo. A prioridade e a originalidade não se encontram entre os objetivos que o trabalho psicanalítico estabelece para si, e as impressões subjacentes à hipótese do princípio de prazer são tão evidentes, que dificilmente podem ser desprezadas. Por outro lado, prontamente expressaríamos nossa gratidão a qualquer teoria filosófica ou psicológica que pudesse informar-nos sobre o significado dos sentimentos de prazer e desprazer que atuam tão imperativamente sobre nós. Contudo, quanto a esse ponto, infelizmente nada nos é oferecido para nossos fins. (FREUD, 1950)
Da mesma forma, cometer-se-ia um equívoco, ao trazer para este trabalho, a psicanálise freudiana quanto à explanação sobre o egoísmo, pois, muito embora o termo não apareça tantas vezes em suas obras, a base de sua teoria está fortemente aplicada nela. O início se sua teoria está atada a questão do prazer, como foi exposta na obra Além do princípio do prazer:
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Na teoria da psicanálise não hesitamos em supor que o curso tomado pelos eventos mentais está automaticamente regulado pelo princípio de prazer, ou seja, acreditamos que o curso desses eventos é invariavelmente colocado em movimento por uma tensão desagradável e que toma uma direção tal, que seu resultado final coincide com uma redução dessa tensão, isto é, com uma evitação de desprazer ou uma produção de prazer. (ibidem)
Por esta introdução, pode-se perceber que toda e qualquer anomalia mental, benéfica ou maléfica, está contida no equilíbrio entre o prazer e o desprazer, impondo toda uma condição íntima para o equilíbrio psíquico do sujeito, ou seja, de sua autopreservação. Muito embora exista a condições de terceiros, ou seja, da segunda pessoa, tudo gira em torno da primeira, de satisfazer a si mesmo.
No comentário sobre a psicanálise, Abbagnano (2007) coloca, que na obra Ego e o id (Das Ich und das Es), em 1923, Freud propôs em sua teoria, e que foi amplamente aceita pela psicologia de sua época, a divisão do “espírito” humano em três parte: ego, que é a organização e consciência, e por isso está em contato com a realidade e procura submetê-la a seus fins; superego, aquilo a que geralmente se dá o nome de consciência moral e que geralmente é o conjunto de proibições impostas aos homens em seus primeiros anos de vida, acompanhando-o depois, mesmo que de forma inconsciente; e Id, que é constituído pelos impulsos múltiplos da libido, sempre voltada para a satisfação do prazer. Esta doutrina, que foi revisada pelo próprio Freud mais tarde, conforme em Sistema de Inibição e Angústia, em 1926, revelou-se bastante útil para a descrição e interpretação das doenças mentais quanto para a teoria da personalidade. Mais adiante, Abbagnano (2007), continua sua exposição, explicitando que entre as muitas tendências interpretativas que modificaram em maior ou menor grau as doutrinas fundamentais da psicanálise, lembrando os autores Jung e Adler, na qual, Jung concebe o instinto fundamental do homem não como natureza sexual como em Freud, mas como uma energia originária e criativa que se identifica com o conceito genérico de divindade e constitui o inconsciente coletivo, que é a base comum da natureza humana (Psicologia do inconsciente, 1942). Adler, ao contrário, identificou o instinto fundamental do homem como a vontade de potência de que falava Nietzsche, ou seja, como um espírito de agressão e de luta em conflito com o outro instinto, o sentimento de comunidade humana, que liga o indivíduo a todos os outros. A interação dessas duas forças determinaria o caráter de cada homem e suas manifestações patológicas (Conhecimento do homem, 1927).
Bastaria isso para desistir de buscar uma fundamentação para o egoísmo, como natureza humana, porém, não se trata aqui de fundamentar a questão do egoísmo dessa forma. É importante lembrar aqui que Heidegger faz crítica sobre a base de sustentação da teoria freudiana, sendo que esta, para o filósofo, não se sustenta por se tratar de uma fundamentação metafísica para explicar a personificação humana longe daquilo que ele considera o ideal, a partir do ser-aí (Dasein).